Carta de leitor, O Globo, 24.08.2010

Cotas na UFRJ

Ao contrário do que expressam setores da imprensa, o debate sobre políticas afirmativas no ensino universitário não pertence à UFRJ, à USP ou a qualquer setor da sociedade. Soma-se a quase uma década de reflexões, envolvendo intelectuais, dirigentes de instituições de ensino, movimentos sociais e movimento estudantil, parlamentares e juristas.

Em editorial de 17 de agosto, O Globo assume posição contrária a essas políticas, sugerindo facciosa e distorcidamente a “inconstitucionalidade” do sistema de cotas, quando, na verdade, o que está em pauta no STF não é a constitucionalidade das cotas, mas os critérios utilizados na UnB para aplicação de políticas afirmativas. O texto também desmerece ações afirmativas – entre elas, as cotas raciais – encaminhadas por mais de cem universidades públicas, incluindo a UFMG, UFRGS, Unicamp, UnB e USP, e tenta sugestionar o debate em curso na UFRJ.

Enquanto a discussão crescia em todo o país, o acesso de estudantes à UFRJ continuou limitado ao vestibular, com introdução recente de mera pré-seleção por meio do ENEM.

Num país que realmente assegure oportunidades iguais a todos, o acesso à universidade pública precisa levar em conta os diferentes perfis dos estudantes, sem replicar discursos mistificadores sobre “mérito” (“nivelando” méritos de  pessoas de condição social e trajetórias díspares) ou “miscigenação” (ocultando a exclusão dos “menos mestiços”). Com cotas sociais – e, sobretudo, as que reconhecem a dívida histórica do Brasil em relação aos negros – a comunidade universitária avançará, com o país e na contramão da imprensa retrógrada, rumo ao reconhecimento necessário dos crimes da escravidão, que, justamente por não serem reconhecidos como tal, se perpetuam no apartheid social em que vivemos.

Rio de Janeiro, 19 de agosto de 2010

Heloisa Buarque de Hollanda  (Escola de Comunicação), Laura Tavares (IPPUR), Marcelo Paixão (Instituto de Economia), Nelson Maculan (COPPE, ex-reitor da UFRJ) e Otávio Velho (Museu Nacional).

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2 Respostas to “Carta de leitor, O Globo, 24.08.2010”

  1. Carlos Melo Says:

    Que dívida Histórica é essa? HISTÒRIA é o que aconteceu! Querem modificá-la agora? Se não tivessem, essas gentes, por razões fáticas, mercantis, religiosas,históricas, ou o que se queira inventar, sido trazidos para contato social diverso e mais (muito mais) abrangente, ainda estariam de tanga, no canibalismo (Reino da Raínha GInga-o mais avançado da época)… Ora deixemos de lorotas!

  2. joyce santos Says:

    Adoreiiiiiiii o site, 🙂 bem interessante conseguir trabalhar nos meus estudos<3

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